Lançamento do livro Anatomia da Pedra & Tsunamis

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Poeta Marco Vasques completa a sua Trilogia das Ruínas com o lançamento do livro Anatomia da Pedra & Tsunamis

 Anatomia da Pedra & Tsunamis é o novo livro de poemas de Marco Vasques.  A obra, que será lançada no dia 15 de maio, às 19h, na Fundação Cultural Badesc, e completa a chamada Trilogia das Ruínas. O primeiro livro, Elegias Urbanas, foi publicado em 2005 pela editora carioca Bem-te-vi; o segundo, Flauta sem Boca, foi publicado em 2010 pela editora catarinense Letras Contemporânea. Anatomia da Pedra & Tsunamis mantém o tom elegíaco das obras anteriores e vem todo ilustrado com desenhos da jovem artista joinvilense, Carol Silva.

Para Valdir Rocha no livro Anatomia da Pedra & Tsunamis:  “Marco Vasques planta silêncios, regando com lágrimas petrificadas versos e prosa poética. Anatomia da Pedra & Tsunamis, olhado em um primeiro momento parece ser livro de poucas palavras. Mas é para ser lido e, quando isso se dá, constata-se que diz o necessário, estritamente. O poeta cortou na própria carne, sua e de cada poema, todo excesso. Para que jogar palavras ao vento, quando o morto / a morte só pede um gesto de contemplação? A anatomia que se empreende conduz a estudo dilacerado do corpo morto, sem dissecação física, e de “vivos devastados”; estes com todos os cortes – sem suturas – inevitáveis. Proponho que Anatomia seja lido como se cada um estivesse a elaborar uma cena de cinema. O livro crescerá diante de olhos diretores.”

No lançamento, os 100 primeiros livros serão gratuitos. Após a distribuição dos 100 primeiros a obra custará R$10,00.

 

SOBRE O LIVRO 

Anatomia da Pedra & Tsunamis:
a necessária força da poesia

Por Rubens da Cunha

Como se posicionar diante da Anatomia da Pedra & Tsunamis, este canto compacto, sólido, que se estende por 30 poemas que nasceram a partir da reverberação de uma tragédia: o terremoto que ocorreu no Haiti em 2010? Anatomia da Pedra & Tsunamis é a última parte uma trilogia, cujos livros precedentes são Elegias Urbanas, (2005, Editora Bem-te-vi) e Flauta sem Boca, (2010, Letras Contemporâneas). Os três livros se conectam e dialogam sobre e a partir da luta do poeta contra o estado de pedra, de aço e de metal em que a vida humana se encerrou. Assim, o leitor deve se posicionar mais como um parceiro nessa luta do que como espectador. E se trata de um posicionamento sem esperar vitória, sem esperar resgate ou redenção e, sobretudo, parodiando a oitava regra do filme Clube da Luta, se for a sua primeira vez nesse livro, o leitor tem que lutar. O livro Anatomia da Pedra & Tsunamis, bem como toda a poesia de Marco Vasques, não permite que o leitor se exima ou se abstenha da luta e de enfrentar a força dos poemas talhados na surpresa e no caos.

A luta traçada e vivida por Vasques vem desde Elegias Urbanas, que é um livro breve com 25 poemas, ou 25 elegias, sem títulos e que trazem reflexos de um homem perdido dentro da urbanidade, recheado de melancolia, de um desespero contumaz diante da percepção de que não há um lugar individual, solitário, idealizado, mas apenas o lugar dentro da cidade, dentro do trânsito, do caos, dentro de uma humanidade morta, vítima que é da indiferença. O homem exposto nesses primeiros poemas é uma criatura urbana que recicla o caos, que se dilacera diante da barbárie, às vezes andeja pelas ruas, às vezes se esconde dentro de casa ou dentro de si mesmo, mas sempre está vivendo em busca de um sentido.

No livro seguinte, Flauta sem Boca, o poeta andante se recolhe, centra-se sobre sua subjetividade, ruína-se por dentro numa tentativa de se igualar ao mundo. Pautado pelas notas musicais, os poemas alongam-se numa orquestração entre a catástrofe e o silêncio. Não são elegias, são gritos assombrando-se com uma música tensa. A luta nessa flauta sem boca é outra, talvez mais contundente porque solitária demais, porque lúcida demais em seu vício de lutar contra o mundo concreto ao mesmo tempo que se vê assimilado por ele. Nesta assimilação a pele, a palavra, a alma se fazem perda, porém, a certa altura, o poeta musica-se entre a derrota e a esperança: “braços e pernas de concreto / se fundem ao meu corpo / eu não sou mais eu / sou aquela pedra / que dorme / em forma de corpo / mas que ainda sonha / e se solidifica / até a ternura morder-se.” Assim, Flauta sem boca respira alguma vontade de transformação, de modificação de que a vida não é esse insulto à sensibilidade que se estabelece dia a dia como uma verdade ditatorial.

Por fim, em Anatomia da Pedra & Tsunamis, o poeta lutador sai de sua própria luta e aceita-se tatame para uma tragédia, impondo ao leitor que também saia de seu posto de parceiro de luta e se irmane no chão em ruínas. No mundo dos acidentes naturais, um dos mais imprevisíveis é o terremoto. É uma ameaça subterrânea, um fantasma que assoma no repente. O sismo prova a instabilidade a que o humano está submetido. A alta tecnologia pode detectar alguns indícios prévios do acontecimento; a engenharia pode construir edificações mais resistentes, mas uma vez que o fantasma acorde, nada pode ser feito, a não ser se desesperar e esperar que aquilo tudo passe. Depois, sobre a terra, restam apenas escombros. Em 2010, esse fantasma surgiu no Haiti: um dos lugares mais pobres do planeta. Nem foi um dos terremotos mais fortes, mas bastou para assolar o país. O trágico que já pulsava em toda injustiça, desigualdade, miséria que admoestava o Haiti,  aumentou ainda mais com este sismo, que geograficamente ocorreu há 10 km de profundidade e teve como epicentro a Península de Tiburon e, poeticamente, também ocorreu no corpo sensível de Marco Vasques. Depois que soube da notícia, o poeta, feito um guardador de rebanhos, sentou-se e pulsou seus breves e graves terremotos, espalhou essas ruínas sobre as páginas. O poeta terremotou-se também. Não estava lá, nunca passou por um terremoto real, mas como nos livros anteriores, ele é todo empatia com o sofrimento, com o destino incauto e inseguro do humano. A empatia é esse sentir dentro, esse  Einfühlung em que a pessoa tem que perder a sua identidade no outro. O filósofo Theodor Lipps caracterizava a empatia como um processo de imitação interna e involuntária, no qual a pessoa se identifica através do sentimento com o movimento de outro corpo. Por sua vez,  Edith Stein alarga tal conceito e diz que a empatia é uma forma cega de conhecer que é capaz de alcançar a experiência do outro, sem ter que passar por essa experiência. Ora, essa forma cega de conhecer é que Marco Vasques expõe em seus poemas. Os 20 primeiros reverberam o próprio terremoto. Depois, 10 poemas em prosa, intitulados Tsunamis trazem a força das ondas que não raro acontecem após o terremoto. Tanto na primeira parte, quanto na segunda, trata-se de um pressuposto ético que se estabelece em diálogo com a ruína alheia, como se fosse a própria ruína, o própria carne recoberta nas cinzuras do terremoto: “abraços me alcançam / deste  / cemitério de cinza / mastigo / o jardim de desespero / sem laquê”. O poeta prostra-se todo prenhe de tragédia e escreve em fragmentos, em versos quebrados, em densas pedaços de concreto, pois o que tem, agora que não luta, que não atinge o mundo gritado e gritante que sempre enfrentou, é somente o “verso / servo da mudez”, somente possui “pedras e sentidos / no som sem sumo”. O terremoto de Vasques é uma anatomia fotográfica explícita e cruel. O poeta testemunha nos versos iniciais: “mesa posta / mortos beijam / o café matutino / beijo todo os olhos / desses corpos soterrados / que azulejam o cimento / à procura de um céu”. Nessa dupla sequência de beijos, o que segue é a visão nada estanque de alguém que não presenciou o terremoto fisicamente e, por isso, está livre para ser outro tipo de testemunha: aquela que pode transcrever a tragédia pelo poético. Não corresponde à verdade, dirão os órfãos do Realismo, porém corresponde à outra verdade: a verdade empática e enfática daquele que não se imuniza e nem sai imune das coisas. No tsunami final pode-se ler essa verdade: “e nenhuma flor ou círio faz sentido silêncio silêncio tsunami é a alma. afogados leem meu corpo e não posso agarrar o sonho nas duas mãos. silêncio silêncio duas almas abrem a garganta da noite e enterram dois corações de meninas na última brancura que me resta.”

Se o poeta já lutou em suas elegias urbanas, já tocou uma música impossível em flauta sem boca, agora ele testemunha a anatomia da pedra e os tsunamis na alquebrada catástrofe daqueles escombros ilhados e distantes, mas que também o atingiram. Assim como os leitores de Marco Vasques, parceiros na luta, também serão atingidos e transformados pelo sismo poético que se depreende dessas páginas de Anatomia da Pedra & Tsunamis.

 

O AUTOR

Marco Vasques é poeta, contista, crítico de teatro e de literatura. Bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina.  É mestrando em Teatro/UDESC. Tem publicado os livros Cão no Claustro (Poemas, 2002, Letradágua, SC),Elegias Urbanas (Poemas, 2005, Bem-te-vi, RJ), Diálogos com a literatura brasileira – volume I (entrevistas, 2004, EdUFSC/Movimento, SC/RS), Diálogos com a literatura brasileira – volume II (entrevistas, 2007, EdUFSC/Movimento, SC/RS), Diálogos com a literatura brasileira – volume III (entrevistas, 2010, Letradágua, SC), Flauta sem Boca (poemas, 2010, Letras Contemporâneas, SC) e Harmonias do Inferno (contos, 2010, letradágua, SC). É colaborador das revistas Zunái (SP), Sibila (SP), Coyote (PR) e Agulha (CE). É cronista semanal e crítico teatral do jornal Notícias do Dia. Já foi colaborador dos jornais A NotíciaDiário Catarinense, Rascunho entre outros. Tem contos e poemas publicados nas revistas AgulhaBabelCoyote, BlauCult. Foi diretor de cultural da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, onde criou o projeto Terça com Poesia ao lado do poeta Rodrigo de Haro. Fio Presidente da Comissão Permanente de Cultura de Florianópolis. Fundador do jornal literário Capitu Traiu!, em Joinville em 1997.  Como diretor teatral montou Valsa n.6 de Nélson Rodrigues, Vírgula da Vida ou Monólogo Coletivo texto de Marco Vasques e Quatro Traço de Vidas espetáculo baseado nas obras poéticas de Mario Quintana, Drummond, Manoel Bandeira e Cecília Meireles. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina e exerce o cargo de Consultor de Projetos Especiais na Fundação Catarinense de Cultura. É editor da Revista Osíris Literatura e Arte, ao lado do poeta Rubens da Cunha. É, também, editor-chefe do Suplemento Cultural de Santa Catarina [ô catarina].

 

O quê: Lançamento do livro Anatomia da Pedra & Tsunamis
Quando: Dia 15 de maio, quinta-feira, às 19 horas.
Onde: Fundação Cultural Badesc. Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis.
Quanto: gratuito.

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