Nariz de pelo testa

NARIZ DE PELO E OS RUÍDOS DA MARIPOSA NA NOITE TEMPESTUOSA

LUIZ RODOLFO ANNES 

ESPAÇO FERNANDO BECK | 18 DE JULHO A 23 DE AGOSTO DE 2019

Composta por pequenos desenhos em nanquim sobre papel e dois vídeos, a exposição possibilita um mergulho em um universo próprio e subjetivo de personagens que poderiam habitar qualquer história em quadrinhos ou filme de terror. Luiz Rodolfo Annes vive, trabalha e estuda em Curitiba. Cursa mestrado em Cinema e Artes do Vídeo na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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APRESENTAÇÃO

Eu sou uma pizza, 2017. Nanquim sobre papel, 11x17cm.

O que L. R. Annes nos entrega, corajosamente, são faces, expressões. Precisamos pensar e sentir com desenhos marcados pela economia do gesto. A linha chega a tremer de tão premeditada.

Aqui estão títulos desconcertantes como “Eu sou uma pizza” ou “Donkey Boy” – algo como “Menino Burro”. Pisamos em um universo feito de personas nada detalhadas, pelo contrário, esquematizadas (não sem hesitação), numa clara proximidade com as histórias em quadrinhos, sem contudo apelar para um esquema narrativo do tipo começo-meio-e-fim, sem a pretensão de uma moral colocada como verdade ou redenção.

Acredito que o interesse de L. R. Annes pela literatura (sobretudo pela poesia) tem muito a dizer sobre os temas que lhe são caros. Por sinal, estamos diante de um artista que mantém uma caudalosa produção também no campo da literatura.

Em “Nariz de pelo” surge uma figura cujo nariz crescido e peludo se destaca dos demais, inconfundível referência ao Pinocchio. Se lembrarmos que a série “Donkey Boy” já traz no título o burro que, aos poucos, vai se transformando o menino da história de Carlo Collodi – podemos imaginar que parte da exposição se atreve a explorar a asneira de se estar vivo, a condição animal e espantosamente brutal de se estar no mundo.

Há, portanto, o desencontro entre a pulsão do sujeito que deseja (o lado desobediente, ativo e incoerente de Pinocchio) e a contenção do indivíduo que conscientemente economiza sua libido e pondera a partir do que lhe diz o Grilo Falante (a porção carinhosa e zelosa do boneco de madeira para com seu criador, Gepeto).

O que nos aparece diante dos olhos é o resultado de um intenso, longo e profundo processo de introspecção do artista em busca da compreensão de questões tão poderosas como a solidão, a mentira, o sexo, o duplo, a pulsão, a dor, enfim, o estar vivo.

Fernando Boppré

DONKEY BOY | A MARIPOSA | EU SOU UMA PIZZA AINDA | MERGULHO

Donkey Boy, 2017. Nanquim sobre papel, 14x17cm.

Donkey boy Preocupado com o rumo da história, acende um cigarro, buscando clareza de pensamento. O menino burro com olhos arregalados e mãos trêmulas se vicia na solidão. Ele é mais cabeça do que corpo; na verdade, sua cabeça é muito grande. Ela pesa demais sobre seu pescoço, o que lhe causa grandes desconfortos, mas não é a anatomia que o faz sofrer. O que o faz sofrer é sua dor interior. Ele se agita na paisagem, procura linhas de horizonte possíveis onde possa habitar. Ele chora. Do seu corpo desajeitado brotam outros seres. Fantasminhas sorridentes ou cabeças ocas como a dele. Ele também baba. Ele sorri com dentes de vampiro. Ele chora novamente e acende outro cigarro. Ele acena ameaçando um olá. Ele, mesmo de coração devastado, esboça um sorriso, mas sua tristeza não lhe permite ser feliz. Na sua desventura, é acompanhado por outros seres semelhantes à sua imagem exterior. Esses seres se aconchegam, se aproximam. Alguns delicadamente, outros com violência. Observá-lo é compartilhar de um mundo flutuante onde o sonho toma forma.

Nariz de pelo, 2017. Nanquim sobre papel, 15x21cm.

A mariposa Da boca do impuro nascem anjos. Esqueço os dias de silêncio. Em meus ouvidos soam os ruídos da mariposa que se debate cegamente na luz. Sigo a noite, tempestades reviram o céu enquanto eu me contorço e ele baba seres que estavam acomodados em suas entranhas. Seres aninhados dentro dele, que ganham liberdade. O seu nariz de pelo o distingue dos demais, é a marca que carrega. Ele sente-se amaldiçoado, um ser impuro e maldito. Seu corpo é um campo de batalhas, desejos, sonhos e gozos. Ele vaga pela Terra à procura de amor.

Eu sou uma pizza, 2017. Nanquim sobre papel, 9x17cm.

Eu sou uma pizza ainda Isso faz com que eu me mova lentamente, coração aberto, abrigando seres noturnos que ali se acomodam. Ser uma pizza é ser aquele que se entrega como alimento. Saciando os famintos. Personagens amontoados em grupos, fantasmas, gosma, meninos encapuçados formando totens, juntos, como se o abraço fosse o único abrigo possível. Corpos que se fundem, cabeças brotando de cabeças.

Mergulho, 2017. Nanquim sobre papel, 17x15cm.

Mergulho aprisionado entre paredes, sem saída. Não é possível escapar, perigo iminente. Sonho a sombra que se torna sólida. Fecho os olhos e babo. Me protejo de diversos perigos, anzóis assassinos, espinhos. Ele corre de garras ameaçadoras. Ele constrói a partir da sua pele uma casca protetora, um abrigo feito de baba e tecidos mortos. A construção assemelha-se à cela de uma prisão. Lá se escondia dos perigos exteriores. Lá, dentro da casca, sentia-se satisfeito. Não tinha medo. Estava seguro. Isso até o momento em que as garras invadiram o interior da sua mente e sua casca tornou-se um peso inútil. À noite ou durante o dia, não importava: as garras estavam lá dentro dele para atormentá-lo. Temia pela sua frágil vida. A simples ideia de que as garras iriam alcançá-lo era para ele uma terrível tortura. Não importa aonde ele vai ou quanto tempo se passou. As garras permanecem em perseguição. Ele deseja a liberdade. Anseia que as garras desapareçam. Ele anseia por esquecimento.

Luiz Rodolfo Annes

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