CRIADAS CRIATURAS
LORO LIMA
CURADORIA THAMI LUZ
ESPAÇO JARDIM | 15 DE MAIO A 14 DE AGOSTO
A obra “Dragão”, de Loro Lima, só pôde ser transportada pelo tecido. A pele, tramada e trançada pelo artista, constitui um estudo sobre a flexibilidade. Ao mesmo tempo em que a criatura provoca medo, ela também convida ao tato. A peça captura o movimento das entrelinhas, o espaço do entre, convidando você a adentrar. Assim, torna-se possível avistar todo o interior da criatura. Em termos percentuais, a quantidade de água na Terra e no corpo humano se assemelha – ambos são úmidos e quentes para que a vida floresça. O “Dragão”,
que em algumas culturas é considerado um ser maléfico, enquanto em outras simboliza prosperidade, nos faz transitar entre aquilo que mostramos e o que preferimos esconder.
A criatura é criada pelos rituais, do enterro, o que é próprio de toda raiz, passando ao desenterro da ação humana, onde encontrava-se uma pata; e com garras. Processo da “(cria) (ação)”, para citar Loro. É como se seres humanos estivéssemos aqui para desenterrar. De fato, a parte mais difícil na hora de mover o bicho, do ninho para o jardim da Fundação Cultural BADESC, foi o agarrar da pata. Mais uma vez Loro Lima nos move entre o vazio e o apego.
Atualmente ritualizamos mais as coisas do que os encontros, a rapidez com que descartamos, a pouca atenção que nos damos, conversas ansiosas antecipadas pela imagem abusiva da despedida, ou da resposta na ponta da língua. Despedir-se virou uma questão de lugar que sobra. Acelerado consumo. Loro é um questionador do distanciamento entre homem e natureza. Incapazes nos tornamos de duvidar da linha reta ou da curva perigosa, deixando-nos ocupados para então ignorar as margens e os rejeitos. Aquilo que separa o carbono do abono é o tempo.
Projeto acelerado na era da plataformização da vida, onde indivíduos isolados em seus aparelhos tecnológicos configuram um corpo-máquina acoplado. O silício não é capaz de formar ligações tão estáveis e essenciais para a vida como o carbono. Na sociologia falamos muito das desigualdades de raça, gênero e classe social fazendo uso dos conceitos de marginalização, pessoas que dificilmente ocupariam o centro se encontrando mais bem pelos cantos. É também pelos cantos que todo material que agora compõe o “Dragão” foi encontrado. Loro Lima nos revela o efeito teoria, como se toda denúncia se transformasse em alimento do “Dragão”. Loro, pelo tecido tramado da sensibilidade e profundidade de sua arte, nos aproxima desse bicho sempre faminto, nos posiciona de frente, dessa necessidade de encarar tudo aquilo que rejeitamos. Incluímos aos humanos as demais espécies, outrora idealizadas como monstros, principalmente quando originárias das profundezas do mar. E não seríamos criadas criaturas?
O mar tem essa capacidade de revelar os restos de fragmentos humanos, expostos nas planícies das praias. Afinal as intransigências do mundo parecem se mover de forma mais acelerada. No fundo o “Dragão” do Loro é sobre tudo aquilo que não queremos ver. E é impressionante como no jardim da Fundação Cultural BADESC o “Dragão”, depois da reviravolta do traslado, se ergueu todo empinado como se dizendo: me olhem. O que atualmente nos resta contemplar é o “Dragão”.
Thami Luz



















