REVERBERAÇÃO, de Nei Xakriabá

REVERBERAÇÃO 

NEI XAKRIABÁ

CURADORIA BETÂNIA SILVEIRA

ESPAÇO JARDIM | 28 DE AGOSTO A 14 DE NOVEMBRO

Como artista visual, em recentes trabalhos, venho escrevendo com estêncil e folhas de erva-mate, nas areias de praias, pátio e biblioteca de escolas públicas, a frase Indigenizar o Planeta e com ela, repetida vezes, construo no chão e sobre outros suportes possíveis, painéis ecológicos, efêmeros e itinerantes que ecoam uma ação e um apelo.

Esta frase se compõe de um conceito próprio da Antropologia – indigenizar – que se refere, segundo Marshal Sahlins – em O “Pessimismo Sentimental” E A Experiência Etnográfica – à capacidade que os povos indígenas possuem de infundir aos objetos e modos da cultura alheia seus próprios significados e modos de fazer, isto é, como eles conseguem adaptar todo o aporte cultural da sociedade atual aos esquemas existentes da sua própria cultura e dar-lhes outros sentidos, outras funções e outras utilizações, o que revela uma grande habilidade em imprimir sua própria lógica e maestria – destrezas simbólica e técnica – para articular com o sistema mundial contemporâneo e inovar e renovar em contrapartida seu próprio sistema indígena. Portanto, temos muito a aprender com eles e suas culturas que são seus modos de vida.

Ao indigenizarmos os espaços, instituições, comportamentos, ideologias, reconhecemos os direitos indígenas e o valor de suas existências, nos colocamos ao seu lado na luta pela preservação da vida e por demarcação e homologação de seus territórios. Além disso, torna-se imperioso assumirmos uma variedade de novas configurações, oportunidade para também nos renovarmos e as nossas ideias sobre o sentido das coisas, dos seres, da vida e dos diversos modos de viver.

Partindo de um trabalho visual para uma ação incisiva, convidei a ocupar os jardins desta Casa, um artista ceramista, dotado de poderosa força expressiva, pertencente ao povo indígena Xakriabá do norte de Minas Gerais, conhecido, nacionalmente, como Nei Xakriabá pela beleza e expressividade de suas cerâmicas. Nei Leite Xakriabá é artista pesquisador das terras e da cerâmica, professor mestre e ativista da causa indígena e do movimento dos artesãos de sua localidade, município de São João das Missões. A cerâmica de Nei, por meio do seu ato amoroso de investigar e ouvir os mais velhos, é herança por ele resgatada do esquecimento que a colonização impôs.

Nei Xakriabá aborda com suas cerâmicas a inter-relação entre ser humano, natureza e ancestralidade e nos dá a conhecer suas representações dos animais do cerrado com os quais seu povo e ele mesmo convivem, respeitam, se alimentam e interagem, tanto no real de seu cotidiano como, miticamente, por meio de suas crenças. Assim, a significativa presença da Cultura Xakriabá se reverbera através da expressão plástica de um de seus filhos.

A reverberação como efeito sonoro faz com que o som emitido se prolongue no ato da sua recepção. Portanto aqui, a voz indígena reverbera a simbologia e as relações de um povo com suas histórias, memórias, mitos e animais. O prolongamento dessa voz que vibra em Florianópolis possibilita-nos, além da aproximação à Cultura Xakriabá, estarmos juntos em ação para indigenizar e ampliar nossos próprios horizontes, muitas vezes estreitados pela competição e o individualismo exacerbado.

As moringas em cerâmica de Nei Xakriabá são muito mais do que objetos utilitários ou decorativos, como ele mesmo explica, elas “são guardiãs de memórias, expressões vivas de um território que pulsa com a força da natureza e a ancestralidade, mantendo vivo o elo entre o passado e o presente”.

Betânia Silveira

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