CORPOS EM FESTA
DASILVA
CURADORIA JULIANA CRISPE E LUCIARA RIBEIRO
ESPAÇO FERNANDO BECK | 16 DE SETEMBRO A 02 DE OUTUBRO
Nesta exposição, o artista daSilva apresenta a força ancestral dos orixás e as simbologias ocultas das tradições hindus para costurar narrativas de resistência, beleza e celebração. A partir do entrelaçamento delicado entre bordado, pintura e vídeo, o artista cria obras que não apenas retratam, mas corporificam a ritualidade das religiões de matriz africana como expressões de vida plena e sagrada. Não se trata de representação, mas de presença: os orixás não são ilustrações, são forças que habitam as águas, os ventos, as folhas, os metais e os corpos. Eles dançam sobre o tecido e a tela, encarnam-se no gesto do artista. O bordado e a pintura são mais do que técnica: são modos de inscrição do sagrado na matéria visível do mundo.
Corpos em Festa é um convite à presença. Uma afirmação de que, nas tradições afro-diaspóricas, o corpo não é silenciado nem separado da espiritualidade: ele dança, canta, pulsa, incorpora e celebra. Cada etapa da existência; nascimento, iniciação, maturidade, passagem (morte); é honrada com ritmo, cor, alimento, canto e movimento. A festa, nesse contexto, não é apenas fuga da dor, mas forma profunda de enfrentamento, memória e transcendência.
Na cosmopercepção de grande parte das religiões de matrizes africanas, a morte não representa um fim absoluto, mas uma passagem, um retorno à ancestralidade, um novo nascimento no domínio do invisível. É por isso que a morte também é motivo de festa. Rituais de axexê, por exemplo, celebram a vida de uma pessoa que parte, reconhecendo sua trajetória na comunidade e preparando o caminho de sua passagem espiritual. Não se chora a perda apenas; canta-se o legado, dança-se a presença que se transforma, oferece-se comida, movimento como forma de honra e continuidade.
As obras de Da Silva nos lembram que os orixás são mais do que símbolos: são forças vivas que habitam a natureza e os corpos, que protegem e orientam, que dançam com os pés firmes no chão e a cabeça erguida para o céu. Com linhas e pigmentos, o artista nos conduz por cenas e presenças que ganham formas pelos bordados e telas que vibram em cores e texturas, como se o axé estivesse costurado em cada ponto.
Nessa perspectiva, Da Silva caminha em sintonia com o que a pensadora Leda Maria Martins define como “performances do tempo espiralar”, onde passado, presente e futuro se entrelaçam e dançam na encenação dos mitos, nos cantos, nos toques, nos gestos do corpo e da coletividade. O artista reconstrói essas espirais por meio de uma poética visual que recusa a linearidade da história dita oficial e afirma o tempo das memórias afro-diaspóricas como continuidades vivas e vibrantes. Nesta festa visual, o sagrado e o cotidiano se entrelaçam. O terreiro torna-se território de arte, e a arte torna-se extensão do terreiro. Ainda vivemos em tempos prolongados de intolerância religiosa e apagamento das culturas afro-brasileiras, e em busca de alterar este caminho, Da Silva reafirma que celebrar é também um ato político, e que, infelizmente, para muitos corpos de pessoas negras viventes deste contexto cruel brasileiro, sobreviver e existir com dignidade já é motivo de festa.
A festa, neste contexto, é forma de insurgência. Como lembra Muniz Sodré, o corpo negro na diáspora é um corpo que dança para sobreviver, que canta para contar sua história, que celebra para lembrar que está vivo. Em Corpos em Festa, o terreiro é também território artístico e político: espaço-tempo onde o corpo é refeito, ressignificado, reintegrado à comunidade e ao cosmos.
Assim, cada obra é uma oferenda. Cada ponto bordado, um chamado. Cada cor, um axé. Cada corpo retratado ou evocado, uma encruzilhada entre o sagrado e o mundano. Corpos em Festa não é apenas uma exposição: é uma gira, uma celebração coletiva onde os orixás nos visitam, dançam, e nos lembram que, para quem carrega a memória da travessia, a festa é também forma de cura, luta e reexistência constante.
Juliana Crispe e Luciara Ribeiro






















