PATER; SOBRE PERTENCES VIVOS, Coletiva

PATER; SOBRE PERTENCES VIVOS 

ALEXANDRE SEQUEIRA • BRUNO GOLD • BRUNO ROMI • CAMILA FIALHO • ÉLCIO MIAZAKI • GABRIEL PESSOTO • JOÃO PAULO DO AMARAL • MARCELO AMORIM • MASINA PINHEIRO & GAL CIPRESTE • PRISCILA RAMPIN • RALPH GEHRE • VICENTE LIMA • WILLY CALDAS

ESPAÇO FERNANDO BECK | 09 DE OUTUBRO A 26 DE NOVEMBRO

O paternalismo é um fantasma que insiste em sobreviver. Não se limita à gura do pai, mas se dissemina como lógica: um modelo de autoridade que protege ao mesmo tempo em que tutela, que cuida enquanto limita, que promete amparo enquanto suprime a autonomia. A exposição PATER; SOBRE PERTENCES VIVOS nasce do desejo de confrontar essa herança estrutural, visível tanto nas relações íntimas quanto nas instâncias sociais, políticas e institucionais.

Ao reunir artistas de diferentes gerações e regiões do Brasil, a mostra revela que o paternalismo não é uma questão superada; é um dispositivo ainda ativo, capaz de moldar corpos, identidades e modos de vida. As obras (de instalação, fotografia, vídeo, projeções e objetos) não descrevem simplesmente esse fenômeno: elas o desarmam, o expõem em sua complexidade e, sobretudo, apontam para formas de resistência. O subtítulo “Sobre pertences vivos” indica que este não é apenas um projeto sobre estruturas de poder, mas sobre as vidas que atravessam e resistem a elas. O paternalismo constrói identidades normativas, em especial a do homem enquanto medida social, mas também gera contranarrativas.

É nesse espaço de confronto que emergem as vozes de mulheres, pessoas não brancas, crianças, comunidade LGBTQIAP+ e outras camadas historicamente silenciadas. São esses corpos que reivindicam presença, existência e pertencimento, mesmo diante de mecanismos que insistem em invisibilizá-los.

Ao falar de paternalismo, inevitavelmente tocamos no patriarcado, sistema que lhe dá sustentação histórica e simbólica. Se o patriarcado estabelece a gura do homem-pai como medida da ordem social, o paternalismo se manifesta no cotidiano como prática de tutela: decide em nome de outros, restringe liberdades sob a aparência de cuidado, transforma corpos e vozes em menores de idade permanentes. Essa interseção entre patriarcado e paternalismo revela como estruturas de poder atravessam a vida íntima e coletiva, moldando afetos, instituições e memórias.

Desde a infância, somos moldados por uma educação que reforça essas estruturas: currículos, normas de comportamento e padrões de autoridade nos ensinam a obedecer antes de questionar. Junto a isso, modelos físicos idealizados (entre eles de masculinidade e poder) são impostos como referência de normalidade e valor. Essa pedagogia silenciosa, mas determinante, fabrica sujeitos adequados a uma ordem que naturaliza a desigualdade e a subordinação.

Paulo Freire lembrava que ‘a pedagogia do opressor, que desumaniza, se instala e se perpetua na medida em que os oprimidos se adaptam a ela. Bell hooks, ecoando e expandindo esse pensamento, escreveu que ‘a sala de aula continua sendo o espaço mais radical de possibilidade.’ Entre essas vozes se desenha a tensão que percorre a exposição: a educação como disciplina que fabrica corpos dóceis e conformados, mas também como brecha para ruptura, transgressão e reinvenção de si. Somos desde cedo ensinados a habitar moldes (sejam físicos, emocionais, sociais) que limitam nossas existências. Mas é nesse mesmo terreno que se pode semear outras formas de aprender, desaprender e imaginar.

PATER é também um exercício de escuta e de sobreposição temporal. Os artistas participantes carregam trajetórias diversas: alguns viveram a experiência da ditadura civil-militar e os movimentos de redemocratização; outros nasceram já em um contexto democrático, mas ainda atravessado por estruturas herdadas. Essa amplitude geracional cria um campo de tensões e continuidades, reforçando a urgência do debate.

Mais do que apontar para o peso do paternalismo, esta exposição reivindica a potência dos ‘pertences vivos’ que não se deixam reduzir ao lugar da tutela. São obras que abrem fissuras naquilo que parecia sólido, que colocam em xeque os privilégios da voz paterna e que convidam o público a imaginar outros modos de existência, de comunidade e de liberdade. A autoridade se desfaz em ruído, e no espaço dessa dissolução emergem narrativas múltiplas, insurgentes, vivas. Um convite a imaginar, sentir e inventar outros modos de relação, mais horizontais, cuidadosos, plurais e inclusivos.

Pater-02
previous arrow
next arrow
 
Pater-02
Pater-17
Pater-18
Pater-19
Pater-20
Pater-21
Pater-22
Pater-23
Pater-24
Pater-01
Pater-03
Pater-04
Pater-05
Pater-06
Pater-07
Pater-08
Pater-09
Pater-10
Pater-11
Pater-12
Pater-13
Pater-14
Pater-15
Pater-16
previous arrow
next arrow