MÁQUINAS DO ABISMO
ROGÉRIO NEGRÃO
CURADORIA DE FRANZOI
ESPAÇO 2 | 07 DE DEZEMBRO DE 2017 A 03 DE FEVEREIRO DE 2018
Objetos, vídeo, instalação sonora, painel de desenhos e máquinas imaginárias compõe a mostra inspirada em desenhos de patentes industriais. Ao conceber engrenagens para resoluções de problemas cotidianos, o artista ultrapassa o limiar entre a engenharia e a poética. No aguardo de uma modernidade que jamais aconteceu, subsiste a promessa de que a precisão maquínica dará conta de atender às insuficiências humanas. Os protótipos apresentados provocam leituras imaginárias dos manuais de instrução do compactador de lucidez, horizonte portátil, nivelador de destinos, purificador de erros, captador de aparências e afinidades, estabilizador de imprevistos, reversor de rejeição e neutralizador de medo. O que interessa não é construir a máquina, mas permanecer no instante anterior à sua existência. Rogério Negrão possui graduação em Design Industrial na Universidade Federal do Paraná e especialização em Gestão do Design na Universidade Tuiuti do Paraná. Nascido em Tejupá/SP atualmente vive e trabalha em Joinville/SC.
CONSTRUÇÕES ATÁVICAS
A exposição multimídia Máquinas do Abismo provoca a procura de múltiplos desdobramentos e sentidos. Ao se apropriar de desenhos de patentes do início da Revolução Industrial, Rogério Negrão começa uma pesquisa que resulta na descrição de uma série de máquinas sensoriais imaginárias esboçadas em colagens digitais impressas, de forma linear, sobre papel cartão, e o desenvolvimento dessas máquinas/objetos por meio de vídeo, de instalação sonora ou na forma matérica.
O artista mergulha no DNA do objeto e expande a abrangência além do planejado, altera a percepção original dos aparelhos e sistemas, produz uma nova conscientização dos limites oferecidos. Constrói e executa uma poética em consonância com a vida, subverte o tempo e o espaço, coloca o observador numa suspensão metafísica, algo que permite considerar o espaço como campo de construção de processo.
O que entra em jogo não é o produto final, mas sim a alavanca que gerou a explosão corpórea: os anseios e desejos intrínsecos no ser humano. Mais importante é o percurso, as conexões ativadas pelo pensamento, os desvios e impulsos provenientes de si mesmo e da existência do outro, pois o criador é o cérebro e suas relações.
Diante das obras, cabe concordar com Joaquim Guedes, que assinala que “há que aprender a imaginar o objeto e, ao mesmo tempo, inventar sua construção”. Rogério Negrão consente quando propõe objetos para o homem contemporâneo que se perde na busca incessante de uma identidade única, pois se afasta cada vez mais do seu ser por não se confrontar consigo mesmo.
Seus objetos permitem ativar o imaginário, esvanecer a caixa de dúvidas, condensar a felicidade, controlar o vazio, dissipar o futuro, gerar consenso, buscar um horizonte portátil, limitar propósitos, neutralizar o medo, nivelar os destinos, purificar os erros, reter a culpa e replicar as vivências.
É preciso parar, respirar, ir para o mundo do sensível, do simbólico, para então, arquitetar e reinventar metáforas para a vida.
Franzoi | Curador
Exposição Máquinas do Abismo, de Rogério Negrão.
Neutralizador de Medo (detalhe), 2016. Madeira, metal, plástico e água, 100x55x55 cm.