MATÉRIA PROLÍFICA
PAULO GAIAD
CURADORIA THAYS TONIN, VICTORIA BEATRIZ, RAINARA SOFIA, GEORGIA BERGAMIN, ESTELA CAMILLO E EDUARDA ANDRADE
OCUPAÇÃO CASA TODA | 05 DE DEZEMBRO A 19 DE FEVEREIRO
O tempo não poupa coisa alguma: é incessante em seu ofício, imperioso em seu reinado, e, nas criaturas vivas, seu toque faz da carne o próprio registro de sua presença. Já na aparente imobilidade dos seres inanimados, sua ação incide sobre a composição da matéria, tornando-os mera lembrança do estado precedente. Autor de múltiplas produções, não seria o tempo, ele mesmo, um artista por tantos renegado?
Observador atento de tais fenômenos, Paulo Gaiad (1953-2016), artista radicado em Florianópolis desde a década de 80, incorporou o inevitável encontro do tempo com a matéria em inúmeros de seus trabalhos. Ao antecipar as marcas vindouras, os objetos produzidos por Gaiad são induzidos ao desgaste e à corrosão – tal como o sal age sobre a pele submersa no mar ou o ar sobre o ferro continuamente exposto.
Encontrar-se com o tempo (talvez com o artista-tempo), foi o inevitável gesto, incorporado assim, na matéria dos trabalhos de Paulo Gaiad (1953 – 2016), observador atento dos efeitos e dos fenômenos que as temporalidades podem carregar. Ao antecipar as marcas vindouras, os objetos produzidos por Gaiad são induzidos ao desgaste e à corrosão – tal como o sal age sobre a pele submersa no mar ou o ar sobre o ferro continuamente exposto.
Nesse contexto, dez anos após a inauguração de Impossibilias: memória e arquivo em Paulo Gaiad na Fundação Cultural BADESC curada por Rosângela Cherem, a produção do artista retorna aos olhos do público sob a mesma compreensão que orientou a criação do Acervo Artístico Paulo Gaiad durante os anos subsequentes à morte do artista: há tantos Paulos e tantas histórias quanto há pessoas dispostas a narrá-las.
Assim, cientes de todas as possibilidades de fabular novas histórias, trazemos para esta exposição uma destas narrativas, a fim de apresentar um aspecto da produção do artista, eleito aqui para orientar a escrita deste novo capítulo: a recorrência (a insistência, pode-se dizer), de figurações, de símbolos ou de certos detalhes e signos visuais nas imagens produzidas pelo artista no decorrer de mais de três décadas de obras. São exemplos – os quais, a partir do momento que são vistos, não se apagam mais -, o modo como a repetição de elementos (a cruz, os corpos nus, a serpente e a figura do lagarto) e a reincidência — não sem distorção — do material fotográfico por ele apropriado, ou ainda, a curiosa proximidade de sua produção com o impulso de criação mostra relacionar-se, sempre, com certos ritos em torno da morte (ou melhor, nossos usos e abusos das relíquias, cenotáfios e lápides). Tornadas, por Gaiad, em aparições, tais repetições atravessam diferentes séries e conjuntos, de modo que, à maneira de fantasmas, cada obra parece carregar consigo o vestígio de sua antecessora, assim como a conversa – infinita – entre o artista e o tempo.
Equipe Curatorial




































