NOME AOS BOIS
LUCIANO BOLETTI
CURADORIA DE FERNANDO BOPPRÉ
ESPAÇO FERNANDO BECK | DE 22 DE JANEIRO A 20 DE FEVEREIRO DE 2015
A mostra reúne objetos, desenhos, fotografias e pinturas produzidas desde a década de 1990. Em comum, a resistência ao corpo humano e animal. Apesar de não dar títulos aos trabalhos, metaforicamente, o conjunto em exposição foi um esforço em se dar Nome aos bois. Artista plástico e restaurador radicado em Florianópolis, Luciano Boletti nasceu no Paraná e se formou em Educação Artística, com habilitação em Artes Plásticas pela Universidade Estadual de Londrina (PR).
APRESENTAÇÃO
Sem título (detalhe), 2008. Grafite, crayon, acrílica sobre tela. Um corpo.
É a origem do mundo. Ao menos, o humano mundo. É a partir dele que se apreende e se participa da existência.
Sendo objetivo – e, portanto, raso – a existência é o período entre o surgir e o desaparcer de um corpo.
“A vida é um pisca-pisca”, conforme Emilia, a do Sítio do Picapau Amarelo.
Um corpo é também a origem desta exposição. Qual corpo? O do próprio artista. Ou seja, não “um” corpo, mas “o” corpo. No singular. Mais do que pele, nervos, músculos, órgãos e ossos, ao pronunciar “corpo” se está dizendo memória, afeto. Está-se imerso, portanto, na linguagem.
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O colapso.
O corpo, por vezes, sofre um colapso. Com menor frequência – porque a falência a todos aguarda – um corpo pode já vir ao mundo colapsado.
No caso do corpo-origem desta exposição, a espinha dorsal, a coluna, não cumpria com suas funções. Não conseguia garantir a verticalidade do tronco. O problema crônico persistiu por mais de uma década, no período da infância e da adolescência.
Ela (a coluna), ele (o corpo do artista), tiveram que ser atados, externamente, a uma haste metálica.
A amarração desse corpo a essa haste era feita por meio de cintas de couro. Com isso, surgiu a experiência prolongada (e forçada) entre haste, cintas e corpo.
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Corpo de imagens.
Se essa é a história inicial desta exposição (algo como um mito fundador), não quer dizer que ela seja prerrogativa. Ela ajuda a explicar, a contextualizar. Donde vem o corpo que se transforma em boi, vaca.
Promete um caminho.
Mas se não soubermos nos perder, não será possível o encontro com o “para-além”, que é o valor maior dos trabalhos e da presença de Luciano Boletti.
O “para-além” é força de espírito aplicada ao corpo, é a precisão de quem sai de um estado e chega a outro. Ainda mais forte, mais vivo. É isso que se vê e sente nos desenhos, pinturas, fotografias, vídeos e objetos.
Se, inicialmente, observa-se a recorrência (a repetição quase
obsessiva) de elementos figurativos que sugerem algo como
vértebras e estruturas ósseas, mais a frente, no meio do caminho, havia uma vaca (havia o acaso). Ou um boi, vai saber (isso também foi o acaso que decidiu). E ele mudou, definitivamente, o trabalho do artista. Ou melhor, o artista deixou-se mudar pelo caminho do meio.
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Do humano para o animal.
A passagem do eu para o outro. Um outro que é o extremo, é a alteridade radical do animal.
Desse movimento feito de curiosidade e desapego, de coragem e calmaria, surgiram trabalhos, por vezes, quase explosivos. A tinta a escorrer e a se espalhar, como resto de uma operação cheia de energias que se dirige para as fronteiras do quadro.
Para além. Como algo que não cabe só ali. Embora se trate de uma explosão controlada, ainda assim há deslocamento de ar, queima. Afinal, para aquele que é de água, o fogo e o vento são elementos para além de si.
Sorte, sorte. Que temos aqui este corpo.
E assim dá-se o nome aos bois.
Amém.
Fernando Boppré | Curador