SILÊNCIOS COSTEIROS, ESCUTA ENREDADA
RAQUEL STOLF
ESPAÇO PAULO GAIAD | 13 DE MARÇO A 03 DE ABRIL
colecionar sons não é um passatempo tão popular quanto as inúmeras fotografias de viagem que povoam nossas redes sociais. entretanto, o desejo de registrar e compartilhar aquilo que escutamos, seja com um microfone ou pela escrita, serviu como motivação para diferentes projetos artísticos e científicos ao longo da história.
em seu discurso de abertura para um curso de etnografia ministrado por Dina Dreyfus em 1936, Mário de Andrade afirmava: “colher, colher cientificamente nossos costumes, nossas tradições populares, nossos caracteres raciais, esta deve ser a palavra de ordem de nossos estudos etnográficos.” dois anos depois, o então diretor do Departamento de Cultura de São Paulo enviaria ao Norte e Nordeste do país a notória Missão de Pesquisas Folclóricas, uma equipe dedicada à realização de gravações de campo das práticas musicais que reconhecia como manifestações autênticas da cultura popular. no âmbito da bioacústica, imensas coleções de cantos de animais foram estabelecidas em instituições como a Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard, facilitando o estudo, reconhecimento e comparação de diferentes espécies. essas coleções permitiram organizar nossa experiência do mundo em um conjunto de objetos conhecidos, catalogados, diferenciados e nomeados: maxixe, guarânia, polca, valsa, sabiá-laranjeira, sabiá-coleira, sabiá-da-mata, sabiá-barranco.
escondida sob os sulcos da goma-laca ou em meio à bobina de fita magnética, encontrava-se uma outra ação da qual todos esses registros dependiam: o silêncio daqueles que gravam. em quase um século e meio de registros fonográficos, diversas estratégias foram adotadas para que os agentes, materiais e processo de gravação pudessem desaparecer completamente, isolando o objeto desejado em todo seu esplendor. o que acontece, então, quando o objeto da coleção se torna o próprio silêncio, esse rumor indesejado que ameaça e atormenta toda gravação?
em sua coleção de silêncios, Raquel Stolf evoca a história da gravação de campo ao registrar, nomear, classificar e dissecar em gráficos os diferentes componentes desses silêncios- sonoros. no entanto, ao direcionar sua escuta e microfones para os silêncios, a artista vira a tradição de ponta-cabeça, excluindo do quadro tudo que outrora seria valorizado como exótico, extraordinário, singular e significante. em uma curiosa infra-manobra, Raquel arremessa seu anzol sob esse mundo de silêncio e faz emergir o que nos esforçamos tanto em desouvir.
a gravação de campo não é mais um dispositivo para preservar um real idealizado, mas para modificar o que percebemos. “o único jeito de mudar as coisas é olhar para elas novamente, muito devagar”, diz a personagem de Isabelle Huppert no filme A Câmera de Claire. ficando em silêncio com o silêncio, somos atravessados e reconhecemos nossa presença nessa respiração contínua do mundo, sempre diferente.
Gustavo Germano





















