TEM PAIXÃO E CALVÁRIO À BEÇA ATÉ ENCONTRAREM A CURA
JOANA GOULART
CURADORIA GABRIEL BONFIM
ESPAÇO PAULO GAIAD | 05 DE JUNHO A 24 DE JULHO
Joana é uma jovem mulher trans e artista que, com seu corpo, entrelaça e tece diariamente os fios de sua identidade. Essa construção não é fixa, mas um processo vivo — um work in progress — uma coreografia entre a matéria e o sentido, entre o que lhe foi legado e o que ela escolhe criar. É um movimento contínuo, no qual se desfaz e se refaz, sendo, ao mesmo tempo, atravessada e moldada por aquilo que a transforma.
No entanto, essa fluidez contrasta com a maneira como a identidade é, muitas vezes, concebida socialmente. Embora útil para organizar a complexidade humana, a identidade carrega em si uma ilusão perigosa: a de que sua permanência é natural e imutável. Desde que nascemos, somos apresentados a essa estrutura como um alicerce necessário, algo a ser cultivado e protegido para que o “eu” não se dissolva no caos. Quando a identidade se consolida como valor social, qualquer fissura em seu contorno é vivida como ameaça — não apenas ao indivíduo, mas à própria ordem estabelecida. O Estado e suas instituições, ao reforçarem incessantemente esse medo, transformam a identidade em uma armadura: repetimos padrões, evitamos rupturas e, assim, acreditamos nos proteger do desconhecido que habita tanto dentro quanto fora de nós.
A vida, no entanto, resiste a qualquer tentativa de aprisioná-la em definições. Ela pulsa no encontro imprevisível de forças, na colisão entre corpos e histórias que geram afetos inesperados. Esses momentos — intensos, por vezes violentos — embaralham certezas, transmutam percepções e inscrevem novas camadas em quem somos. Diante desse turbilhão, a identidade fixa revela-se uma ficção. Nosso apego a ela, contudo, não é mero capricho: funciona como um escudo contra o assombro que sentimos quando a vida nos arranca do familiar e nos joga na vastidão do possível. Tentamos domesticar o caos, suavizar os impactos, mas é inútil. O “eu” nunca foi uma estátua; é argila úmida, moldada a cada gesto, paixão, lágrima, suor e gozo, a cada encontro que nos desconcerta e expande.
Joana, artista de si mesma, compreende essa dinâmica. Em seu corpo — território de memórias, rupturas e transformações —, ela não busca a permanência, mas a travessia. Ela sabe que identidade não é um destino, mas um percurso, sempre aberto ao inesperado. Sua arte talvez resida justamente nesse gesto: habitar o movimento, entregar-se ao fluxo, aceitar que ser não é um estado, mas um ato contínuo. Algo que se faz, desfaz e refaz, entre o êxtase e a vertigem, entre a paixão e o calvário de existir.
Gabriel Bonfim























