VÁRIAS VARIÁVEIS, de João Matheus

VÁRIAS VARIÁVEIS 

JOÃO MATHEUS

CURADORIA KARINE ABBATI 

ESPAÇO PAULO GAIAD | 02 DE OUTUBRO A 26 DE NOVEMBRO

As pinturas desta exposição emergem como fragmentos de um diálogo contínuo — entre olhares, gestos e camadas de tinta que se acumulam como sedimentos de memórias e processos. O retrato, aqui, extrapola a ideia de uma imagem estática: ele se expande, transborda, deixando pistas de algo que não se encerra no limite da tela.

Há uma rede invisível que conecta cada obra à próxima, seja pelo entrecruzar de olhares, pela repetição sutil de um elemento ou pela ressonância de uma subjetividade compartilhada. Essa montagem cuidadosa cria um o condutor que percorre o espaço expositivo, sugerindo que as pinturas não são ilhas isoladas, mas partes de um tecido maior — vivo e mutável.

No centro simbólico dessa trama está “A Lida” — uma pequena pintura que concentra em si o peso do tempo e da matéria. Criada ao longo de dois anos, ela carrega, além das camadas densas de tinta, a poeira dos dias, os de cabelo perdidos, e outras porosidades que o ar e o ambiente lhe ofereceram. “A Lida” é mais do que uma imagem; é um corpo em constante mutação, uma testemunha silenciosa do processo. Posicionada em frente a porta, ela é o primeiro contato do espectador com a exposição, funcionando como um núcleo que conecta todas as outras obras ao seu redor. É nela que os acúmulos — de tinta, de tempo, de histórias — se adensam, ecoando a essência dessa mostra: a pintura como lugar de atravessamentos, onde realidade, memória e ficção se entrelaçam.

As pinturas não pretendem capturar a realidade — elas podem tocá-la, evocá-la, mas jamais se confundem com ela. Anal, o que é a realidade senão uma construção em constante movimento? Aqui, as pessoas tornam-se personagens, e cada pincelada é um convite à invenção. O ato de pensar a pintura é também pensar suas possibilidades narrativas.

É o olhar do espectador que dá sentido final a essas imagens. A cada contemplação, novos mundos emergem, moldados pela personalidade de quem as observa. As conexões, portanto, não se limitam às que existem entre as telas — elas se expandem para além da exposição, encontrando continuidade nas histórias que cada visitante projeta sobre os personagens retratados. Assim, a exposição não se encerra: ela pulsa, se desdobra, atravessando memórias, imaginários e afetos.

Karine Abbati

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