ANTES DE VOLTAR A TERRA, de Giovana Tartas

ANTES DE VOLTAR A TERRA 

GIOVANA TARTAS

CURADORIA DE GUILHERME BROLLO

ESPAÇO PAULO GAIAD | 7 DE MAIO A 25 DE JUNHO

“Perdão se quando quero 

contar minha vida 

é terra o que conto.” 

(NERUDA, 1976, p.19) 

Quando pensamos nas memórias construídas a partir da terra, por onde podemos caminhar? Será preciso retornar ao lugar, tocar o solo, deixar que o corpo reconheça aquilo que o tempo tentou apagar? Ou seriam os materiais, as imagens, os fragmentos, suficientes para sustentar o peso da lembrança? 

Giovana Tartas desenvolve uma investigação de registros fotográficos que relatam diferentes aspectos do cotidiano rural de sua família, anteriores à sua própria vivência. Em diálogo com seus familiares, nasce na artista o desejo de construir, com a materialidade da tinta à óleo, as histórias fragmentadas que permeiam seu passado. Esse gesto, de rememorar e de ressignificar paisagens, sentidos e fantasmas, desdobra-se em cores errantes, em camadas densas, em composições opacas. Através do peso de sua herança familiar, a artista cava, planta e colhe as manchas que permanecem presentes na nossa relação com o campo, com o trabalho e com as pessoas.

Nesse sentido, as paisagens permanecem as mesmas desde que se tornaram registro de um tempo? De que maneira nossa presença altera os lugares que habitamos? Como a terra responde às marcas que inscrevemos sobre ela? 

Além disso, a beleza se torna reconhecível diante de toda carga pictórica, o cuidado dos detalhes, o acabamento, peso das feridas, o controle dos escorridos. No entanto, como tratar das violências inscritas na paisagem sem neutralizá-las pela sedução do belo? 

Nas pinturas de Giovana Tartas, os escorridos em vermelho sangram o suporte, revelando suas feridas. Assim como as dobras presentes em seus trabalhos, esses gestos flexionam nossa relação com a terra. A cor já não consegue pertencer àquele espaço, a sua presença transforma a paisagem, assim como os métodos de habitá-la. As camadas densas de tinta rompem a superfície sensível do suporte e desconfiguram a imagem e a materialidade do campo: não se trata apenas de representar, mas de permitir que a pintura pulse, carregando, em suas marcas, as violências e fraturas inscritas no território.

 

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