O QUE EU VEJO É O BECO
BRUNA GRANUCCI • DIANE S. • GUSTAVO SCHEIDT • JESSICA PELLEGRINI • MARIANA COLIN • OTROPICALISTA • RAQUEL STOLF • SARA RAMOS • TAINÁ SANT’ANA
CURADORIA DE KAMILLA NUNES
ESPAÇO JARDIM | 2 DE ABRIL A 26 DE JUNHO
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
O que eu vejo é o beco.
Manuel Bandeira
O “Poema do Beco” foi escrito por Manuel Bandeira nas primeiras décadas do século XX, dentro do contexto do primeiro modernismo brasileiro, que ganha força após a Semana de Arte Moderna. Esse é um momento decisivo na literatura brasileira: os artistas passam a recusar a poesia grandiosa, retórica, ornamental, herdada do simbolismo e do parnasianismo, e passam a voltar o olhar para o cotidiano, para o banal, para o urbano, para a experiência concreta.
Em “O que eu vejo é o beco”, exposição situada no Jardim da Fundação Cultural Badesc, proponho um diálogo com este autor, ao confluir obras que, cada uma à sua maneira, recusam a paisagem consagrada: a vista ampla, turística, idealizada, aquela que organiza o mundo em horizonte, beleza e distância. A Glória, a baía, a linha do horizonte são símbolos de um espaço, afinal, que promete totalidade, harmonia e abertura. Já o beco é o oposto do horizonte: estreito, sem vista, sem fuga, sem promessa de amplitude. É espaço residual, urbano, menor, cotidiano, muitas vezes associado à pobreza, à marginalidade, ao que não merece ser visto. Ao dizer “o que eu vejo é o beco”, Bandeira afirma que a experiência vivida importa mais do que a paisagem ideal.
Não se trata de negar a beleza do mundo, mas de afirmar uma posição ética e existencial. O olhar não parte do privilégio da vista ampla, mas da condição concreta do corpo situado. Como nos diz Edouard Glissant, “precisamos lidar com um fato: nossa localização é inescapável. O lugar é crucial”. Por isso, o convite para os/as artistas desta exposição se deu para que possamos lidar, muitas vezes, com o aparente incontornável: da vida, da paisagem, do jardim, da cidade, da casa, do beco e do corpo. É na fricção entre esses lugares — sobretudo entre o jardim e o beco — que essa exposição se constrói: com objetos performáticos, instalações efêmeras, deslocamentos de paisagens, arestas moventes, intervenções que desestabilizam o olhar e obras que reivindicam memórias silenciadas.
Esta é uma exposição atenta a corpos dissidentes e ao resto que nos dá forma. Afinal, há também uma dimensão profundamente psíquica no verso de Bandeira. O horizonte sugere futuro, projeção, promessa. O beco sugere presente absoluto, quase claustrofóbico, o jardim, por sua vez, introduz uma outra temporalidade: a do cultivo, da permanência e da transformação lenta. E esse é o espaço de quem vive sem grandes narrativas, sem utopias fáceis, sem ilusão de totalidade. Proponho aqui uma vista do mundo não de cima, mas de dentro, pois não é a paisagem que importa, mas a superfície onde o corpo está inscrito, com seus limites, seus vazios, suas feridas, seus atravessamentos. O autor Gilles Clément, em seu livro “Gênio da natureza”, aponta que “paisagens são as lembranças que guardamos na memória após termos cessado o olhar”, corroborando para a ideia de que a paisagem não existe em si.
Nesse jogo entre beco e jardim, entre paisagem externa e interna, talvez possamos compreender que o beco é o lugar onde não se escolhe o que ver — vê-se porque se está nele —, enquanto o jardim é o lugar onde ainda é possível demorar o olhar, cultivar a presença e sustentar o encontro. O beco é o lugar que se vê porque se está nele. E talvez seja isso que Bandeira nos diz: não vemos o mundo como ele é, vemos a partir de onde conseguimos existir. O jardim “parece ser o único lugar de encontro do ser humano com a natureza, onde os sonhos são permitidos”. Nosso papel, neste sentido, é favorecer a vitalidade já presente na paisagem, compreender que cultivar é participar de um ciclo contínuo, no qual plantas, atmosfera e seres humanos compartilham o mesmo sopro vital. Entre transformação e permanência, o jardim deixa de ser cenário para se tornar presença ativa, que nos molda tanto quanto é moldado por nós.
Lidamos cotidianamente com espaços instáveis, onde identidades, territórios e narrativas se cruzam e se transformam. Inspirada por reflexões sobre pertencimento, cosmologias da terra e práticas insurgentes, proponho com essa exposição pensar a paisagem como campo de disputa e de reexistência. Com essas obras, inventaremos modos de franqueamento: atravessar limites para abrir zonas de encontro, conflito e cuidado. A paisagem deixa de ser neutra e se afirma como território crítico, político e vivo.























