ANTES QUE AMANHEÇA
HASSIS
CURADORIA DE DENILSON ANTONIO, MARCELLO CARPES E VICTORIA BEATRIZ
ESPAÇO FERNANDO BECK E ESPAÇO PAULO GAIAD | 15 DE OUTUBRO A 25 DE NOVEMBRO
Hiedy de Assis Corrêa (1926-2001), artista que dura além do instante, anuncia seu posicionamento, politiza sua estética e a coloca à prova do tempo. Do seu ao nosso contemporâneo, suas obras conservam as sensações que um dia invadiram seu fazer artístico, das inquietações em um contexto de incertezas, de guerras, ditadura militar, das preocupações com os seus e projetadas para um futuro, nosso presente. Seu processo é permeado pelas relações de seu pai e de seu avô com o Exército, somadas às narrativas dos grandes conflitos, despertam no artista um interesse que ultrapassa a memória familiar, transformando-se em pesquisa, observação e produção artística. De todo modo, suas elaborações, atravessadas por uma diversidade de linguagens e materiais, não procuram apenas representar uma realidade, mas elaborar, a partir dela, uma posição diante do mundo.
Da multiplicidade que o torna reconhecível, aqui seu aspecto político ganha expressão. Concentra-se um recorte de sua produção no qual tempo, humanidade, violência, memória e possibilidade de futuro se encontram. O olhar aparece como um testemunho do vivido. A obra de título atribuído Liber, de 1967, posiciona tal perspectiva de forma contundente. Fala de um período histórico autoritário que ainda ecoa em tensão. Cria um imaginário entre o gesto e a violência, a infância e a memória, entre a palavra e o silenciamento. Escancara os vestígios de um corpo perseguido, marcado na superfície crua da madeira; mãos rubras, ensanguentadas, que denunciam o sistema vigente, mas também marcam presença. A composição indica forças de libertação, a palavra interrompida não se mostra como fim, mas o movimento contínuo de criar mundos possíveis apesar das marcas que permanecem.
A exposição mapeia e apresenta as reverberações de um instante duradouro, uma poética violenta que escancara as urgências de um contemporâneo; passado e presente, futuro? Temporalidades misturadas, cruzadas, fluxos que navegam e permeiam o mesmo lugar, Florianópolis, ou antes disso, o mundo. Antes que Amanheça, insiste em um momento de decisão, toma do artista a oportunidade para acreditar que ainda há margem para operar as transformações. Apesar da pouca esperança instaurada em nosso tempo, instituímos o amanhecer para além de um destino inevitável ou linear, buscamos na palavra uma força que possa desmoronar as estruturas que ainda sustentam o pior dos mundos, mesmo que por um instante.
























