CARTOGRAFIAS DAS REEXISTÊNCIAS
RENATA FELINTO
CURADORIA DE JULIANA CRISPE
ESPAÇO FERNANDO BECK | 30 DE ABRIL A 18 DE JUNHO
A exposição Cartografias das Reexistências, da artista Renata Felinto, apresenta pinturas, fotografias, fotomontagens, vídeos e ações performáticas que têm como eixo central, pessoas negras, especialmente mulheres, compreendidas pela artista em suas magnitudes e em suas potências simbólicas.
Ao longo de mais de duas décadas, Renata constrói, de modo consistente e contundente, uma reflexão crítica e sensível sobre os regimes impostos pela colonialidade e sobre os modos como as mulheres negras foram historicamente representadas, silenciadas ou violentadas e, no campo das imagens, por vezes estereotipadas. Ao mesmo tempo, a artista afirma outras possibilidades de existências, seja pela espiritualidade, pelo desejo, pela visibilidade, pela fabulação e autoafirmação.
Ao discutir e contrapor a noção de uma categoria homogênea imposta socialmente, apresentando trabalhos que dão visibilidade à autorrepresentação, mas também à pluralidade das experiências negras de outras mulheres, atravessadas pela memória, ancestralidade, afeto e luta, Renata Felinto propõe um deslocamento radical do olhar hegemônico, convocando o público a confrontar os regimes coloniais e racistas de visibilidade e as formas pelas quais o racismo estrutural e o sexismo moldaram (e ainda moldam) a autoimagem, a autoestima e os lugares sociais historicamente destinados à parte da categoria raça no Brasil. Aliás, raça e gênero operam de forma indissociável na construção das hierarquias sociais, produzindo violências específicas sobre os corpos e as subjetividades. A obra de Renata Felinto inscreve-se justamente nesse campo de tensão, recusando leituras simplificadoras e afirmando a mulher negra como sujeito histórico, político e sensível.
Ao reivindicar o direito ao desejo, à sensualidade e à autoinscrição do corpo negro das mulheres, Felinto desmonta estigmas seculares que ora as hipersexualizam, ora negam-lhes humanidade e afeto. Esse gesto encontra ressonância nas reflexões de bell hooks, para quem o amor, o erotismo e o cuidado de si constituem práticas radicais de resistência frente às estruturas de dominação racial e patriarcal. Aqui, o corpo negro não é objeto de consumo, mas território de afirmação política e autônoma.
Renata Felinto articula referências culturais diversas, adornos e traços simbólicos que evidenciam matrizes e temporalidades constitutivas das identidades negras contemporâneas em suas multiplicidades. Trata-se de um gesto crítico que recusa narrativas únicas e coloniais sobre o ser negro e que reivindica o direito à complexidade, à contradição e à autoria da própria imagem e de sua própria história.
Cartografias das Reexistências afirma que reexistir é um gesto contínuo, atravessando gerações, corpos e imagens que se transmitem, se transformam e se atualizam no presente. A exposição dialoga com a noção de tempo espiralar, elaborada por Leda Maria Martins, para quem as temporalidades afro-diaspóricas não obedecem à linearidade ocidental, mas operam em movimentos de retorno, reinscrição e recriação, nos quais passado, presente e futuro se enlaçam continuamente. Nos saberes ancestrais, aprendidos com as cirandas, com a oralidade e com as mais velhas, o conhecimento não se acumula em linha reta, ele circula, retorna e se renova a cada gesto, corpo e palavra. Renata Felinto constrói, assim, um campo visual de memória ativa, uma reescrita da história em que as mulheres e pessoas negras podem ser vistas em sua plenitude: como personagens de desejo, de memória, de luta, de felicidade e de sonho. Sua obra não apenas enuncia ausências e violências históricas, mas também inaugura outros modos de ver, narrar e imaginar essas presenças no mundo, afirmando lugares de potência, poder e criação e não de dor.






















