RESSONÂNCIAS DO GESTO
LENA PEIXER
CURADORIA DENILSON ANTONIO
ESPAÇO LENA PEIXER | 13 DE AGOSTO A 17 DE SETEMBRO
Durante os primeiros anos da Fundação Cultural Badesc, Lena Peixer atuou na direção de Artes, contribuindo para estabelecer uma programação comprometida com a produção em arte contemporânea, a formação de público e o fortalecimento das artes visuais em Santa Catarina. Sua atuação como arte-educadora e gestora cultural sempre caminhou ao lado de sua pesquisa artística, revelando uma compreensão da arte como experiência compartilhada e como construção coletiva.
O desenho e a gravura aparecem como territórios de investigação contínua, onde textura e contraste possuem uma marca profunda em sua produção, que, independentemente do suporte, permanece como cicatriz poética do gesto, ou de linhas que podem ser criadas pela artista ou percebidas nas rachaduras das calçadas durante suas caminhadas, a linha nunca é apenas contorno. Ela constitui uma forma de pensar. É gesto, escrita e ritmo.
Cada traçado, corte ou a ranhura sobre a superfície, transforma ausência de luz em linhas e as linhas tornam a permanência em imagem. A economia cromática, reduzida ao preto, ao branco e às infinitas tensões entre ambos, revela uma artista interessada menos na representação do mundo do que na força estrutural da linguagem visual.
Esta exposição propõe uma mudança de escala. As obras deixam a intimidade do papel para ocupar, arquitetonicamente, o espaço. Na filosofia de Gaston Bachelard, a “poética do espaço” investiga como a imaginação e a memória afetiva dão significado aos lugares em que habitamos. O corpo deixa de ser um objeto biológico e passa a ser o ponto zero de onde o mundo é sentido, moldado e acolhido. A casa abriga o devaneio e protege o sonhador. O visitante já não observa apenas imagens; passa a caminhar entre elas. A instalação transforma a linha em paisagem, amplia as marcas da gravura até convertê-las em arquitetura luminosa e faz do desenho uma experiência que atravessa o corpo.
Ao ampliar essas imagens, torna-se evidente aquilo que sempre esteve presente em sua produção: a potência do gesto. Cada linha preserva a memória da mão que desenha; cada contraste entre preto e branco faz emergir um espaço.
A homenagem realizada pela Fundação possui, assim, um significado que ultrapassa a celebração de uma trajetória individual. Ela reconhece uma artista cuja suas ações foram fundamentais para a formação de política dos espaços, práticas educativas e culturais em Santa Catarina. A história desta instituição também carrega o seu gesto. Talvez seja essa a imagem que permanece ao final do percurso: compreender que desenhar não é apenas produzir formas. É deixar inscrições no tempo. Algumas permanecem sobre o papel, outras atravessam a madeira da gravura. As mais raras continuam habitando os lugares, as instituições e a memória daqueles que seguem construindo a arte.



















