O JARDIM TAMBÉM SONHA
CLARA FERNANDES
CURADORIA DE VICTORIA BEATRIZ
ESPAÇO JARDIM | 17 DE JULHO A 15 DE OUTUBRO
Em torno do ateliê de Clara Fernandes, uma embiruçu sustenta uma complexa rede de relações. Em seus galhos crescem bromélias e orquídeas, suas flores alimentam polinizadores e seus frutos atraem pássaros e mamíferos. Mais do que uma árvore, ela constitui um ecossistema; um organismo cuja existência cria as condições para que inúmeras outras vidas aconteçam.
Ao trazer esse conjunto de obras para o Espaço Jardim da Fundação Cultural Badesc, após ser convidada a ocupá-lo durante o inverno, Clara Fernandes realiza uma espécie de visita entre jardins. Mais do que deslocar obras, a artista transporta modos de coexistência de um ecossistema para outro. Leva consigo também as condições de cuidado que tornam possível a existência das bromélias e orquídeas. Ao demandarem água e atenção contínuas, esses organismos fazem do cuidado parte da prática expositiva, estabelecendo uma conversa entre paisagens que compartilham a capacidade de acolher diferentes formas de vida.
Tramas, envoltórios, ninhos e vasos sintetizam um processo desenvolvido ao longo dos anos. Embora mobilize materiais diversos, como metal, gesso, fios e fibras, construir é, para Clara Fernandes, antes de tudo, um pensamento têxtil. Dessa prática surgem estruturas abertas, capazes de acolher, conectar e sustentar. É significativo que Clara se refira não apenas aos materiais oferecidos pela natureza, mas ao modo como ela opera. O que lhe interessa não é simplesmente a forma da embiruçu, mas seus modos de agir. Mais do que recolher fibras, bromélias ou sementes, a artista observa seus gestos: como uma planta se propaga, como uma estrutura sustenta outra, como um organismo cria abrigo para diferentes espécies e como a vida produz vida.
O interesse pelos processos de reprodução vegetal desloca o olhar da natureza como imagem, para a natureza como inteligência, uma tecnologia da própria vida. Na capacidade de um galho criar raízes, de uma muda atravessar territórios e de um organismo gerar continuidade, Clara reconhece uma inteligência inscrita na própria matéria viva. Essa compreensão ecológica aproxima-se daquilo que Donna Haraway denomina “fazer com”. Para a filósofa, “nenhum ser existe de maneira isolada”. A vida é produzida por relações, alianças e dependências mútuas entre espécies, matérias e ambientes. Existir é participar de uma trama.
Ao retornar ao jardim da Fundação, Clara prolonga esse campo de interdependências. Suas obras revelam que aquilo que emerge não nasce da separação, mas do encontro. Como a própria embiruçu, elas criam condições para que outros encontros aconteçam. É nesse sentido que o jardim também sonha. Não como uma metáfora da imaginação humana, mas como a capacidade contínua de produzir formas de convivência, experimentar modos de vida e cultivar futuros possíveis.





















