IMAGEM E SEMELHANÇA
HELOISA PANUCI
ESPAÇO PAULO GAIAD | 2 DE JULHO A 20 DE AGOSTO
Imagem e semelhança. Da minha criação, estritamente católica, marcou-me a dualidade daquilo que se vê no mundo: a humanidade carrega em si a tentativa de reprodução do original, divino e absoluto. Seja por meio das inúmeras imagens de santos que habitavam minha casa ou pelo reflexo no pequeno espelho em meu quarto, o ato de ver consagrou-se uma relação de substituição entre o tangível e o genuíno. A noção de imagem se reservaria ao que não é reconstituível, enquanto somos semelhança, vistos sob o parâmetro de algo que não nos cabe.
Conforme me constituí artesã, incorporei tal perspectiva da imagem e semelhança ao manipular a matéria para revisitar e, inevitavelmente, falsear minhas experiências. Fazer com as próprias mãos vem como ato profano, não restringindo a materialidade a um meio de veneração, mas redimensionando a vida como experiência material. O ofício aqui exposto partiu dessa herança católica ao processar o meu entorno: signos da infância, da feminilidade, do corpo, dos afetos. São proposições dedicadas a importâncias pessoais que, por mais íntimas que sejam, relatam pertinências exteriores compartilhadas, modos coletivos de ver o mundo.
Entre 2022 e 2025, produzi obras que remontem primeiramente ao exterior signico e material, para então permitir o acesso ao interno. Por meio do fazer artístico, registro elementos da minha subjetividade de forma ficcionalizada, ao admitir que é impossível reconstituir plenamente aquilo que se viveu e, assim, faço objetos que são outra coisa. São semelhanças, em diálogo com imagens e experiências não mais reconstituíveis, porém com o orgulho de serem coisas. Ocupam espaço, possuem corpo, são tangíveis; manipulações não apenas de sentido, mas de presença, acessada por aqueles que também carregam suas próprias importâncias.






















