ALGO SOBRE A SOLIDÃO
ELKE COELHO
ESPAÇO FERNANDO BECK | 25 DE JUNHO A 13 DE AGOSTO
Das miudezas, um campo de cor. Um campo vermelho, outro azulado e mesmo um campo branco na parede branca. É parte do que vemos nesta exposição. Ao longe, como a tradição da pintura convoca, a vibração cromática. E, de perto, a materialidade tátil das coisas miúdas, de corpos que, na definição dicionária, incluem tudo o que ocupa um lugar, tudo o que tem existência física, uma extensão no espaço – seja mundano, sideral ou do mais banal cotidiano – tudo o que em nós dói quando se parte.
No trabalho de Elke Coelho não interessa a inteireza de um. Cada um é sempre menos que um, mais que um, sempre uma parte. De perto – insisto no gesto de aproximação –, vemos que ocupam não só um espaço mas também um tempo. Um tempo inacessível senão pelos indícios do que a artista, nas suas palavras, organiza “artesanalmente” com objetos industrializados ou coletados no ambiente. E cada um não é menos sozinho nas composições nem nas vertiginosas quantidades: 30 mil, 100 mil diminutos materiais na transparência de caixas, vidros, molduras.
O trabalho que o trabalho requer é feito no sem medida do que um corpo faz. É feito no manuseio repetitivo e singular que configura um por um. E o que ao nosso redor, invisível e não remunerado, ao longo de minutos, horas, semanas, meses, anos, não é feito assim? No dia-a-dia do trabalho, uma extensão.
De guardanapos, cotonetes, cortiças, cápsulas, sagu, alfinetes, flores secas sempre-vivas, a textura macia que cai da paineira, esse vertical algodoal, que ergue-se cheio de espinhos. Na extensão – em qualquer direção, na duração imprevisível de todo corpo – é que a solidão emerge, feito a ponta (ponto, ponte) que desponta na esponja em “buraco negro”.
Aline Dias


























