O CORDÃO E O PEDÚNCULO, de Maria Luiza Mazzetto

O CORDÃO E O PEDÚNCULO 

MARIA LUIZA MAZZETTO 

ESPAÇO FERNANDO BECK | 20 DE AGOSTO A 8 DE OUTUBRO

Com a potência de seu teor imagético, e por ser apresentada singelamente no formato de 30 X 30 cm, a fotografia intitulada o cordão e o pedúnculo, de 2020, nomeia a mostra de Luli Mazzetto aqui presente. Para o nosso olhar, é notória a ausência do cordão umbilical ou de pedúnculos, aqueles cabinhos que unem os frutos às suas árvores-mães. Surgem evidenciados na imagem fotográfica, vistosos caroços de abacate apertados junto a um umbigo. O aspecto visceralmente similar de tais formações tão distintas entre si apreende o foco de nossa mirada. E o entrelaçamento dos reinos vegetal e humano, é o que instiga sobremaneira a artista.

A percepção das diferenças moleculares e ambientais da fauna e da flora, de como os seres nascem, experimentam sua cadeia alimentar, morrem e se decompõem, reequilibrando a natureza ao gerar a existência de outros seres, é uma seta de sensibilização quanto ao contexto desta exposição. O conjunto reúne 12 trabalhos de uma trajetória artística voltada à experimentação de técnicas diversas, como desenho com grafite, pintura acrílica sobre papel, biscuit (ou porcelana fria), vídeo e fotografia, realizados no período de 2018 a 2023.

Com curiosidade, a artista investiga as relações de artificialismo entre os modos de como vivemos em escala urbana e rural na atualidade; e o que produzimos para consumo nas mesas domésticas e comerciais -, alimentos ultraprocessados com pesticidas e transgênicos. Em seu ateliê, Luli toma o partido de hipóteses ao criar espécies híbridas ou aliens, como define. Talvez estes sejam mesmo os co-responsáveis por disseminar toda uma paisagem ficcionalmente futurística de raízes crescidas a partir de tumores, penas de aves, bulbos de plantas e escamas de peixes delineados superpostamente por uma ordem de seu imaginário de artista, onde tudo (e nada) possa parecer (e não) a representação de algo comestível. “A maçã mais bonita é também a mais envenenada”, ela afirma.

A exibição ´O cordão e o pedúnculo´ é um scan acerca destes seres imaginados em paisagens porosamente inventadas como sobre um fundo com tecidos de um misterioso invólucro do espaço irreal. Vemos expostas obras em dimensões variáveis feitas de biscuit, técnica que ao longo do tempo vem se tornando emblemática na jornada da artista. Esta sua escolha pelo processo se deu, justamente, por haver firmado a visualidade de suas práticas estéticas junto a profusão de formas orgânicas, que assemelham-se a verdadeiros corpos celulares quando observados em lâminas de laboratório por lentes de aumento; ou a viscosos organismos subaquáticos rastejantes do fundo do mar. Avistamos em seus trabalhos camadas geológicas com fósseis petrificados, corais lavados, peles dissecadas subcutaneamente, membranas, cipós e esponjas alienígenas em tons flúor-fosforescentes.

Como no livro que é uma das referências contemporâneas mais contundentes para se compreender o cohabitar e a comunicação interespécies -, em “Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno”, Donna Haraway (EUA, 1944), a bióloga e filósofa da natureza, com sua teoria, propõe que enfrentemos ética e coletivamente a crise climática e ecológica instaurada no mundo sem buscarmos saídas e soluções “mágicas” de  tecnologia. Longe de uma tábula rasa, as manualidades postas à prova nesta exposição parecem mesmo deixar exposta a metamorfose de suas entranhas. Com ´O cordão e o pedúnculo´, a artista traça e molda uma estranha genealogia das formas de vida, expressando a continuidade de nossas origens sem orgãos desde os primórdios.

Por Marcio Harum

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